Desordem e Retrocesso na mobilidade das cidades brasileiras

Por Paulinha Pedestre e Uirá Lourenço

Quando se é criança, os pais ensinam seus filhos a como se comportarem perante a sociedade. Mas, para isso, é necessário que dêem o exemplo. Caso contrário, os filhos ficarão confusos e podem se indignar.

Um paralelo pode ser estabelecido entre Estado e Sociedade: como assim querer multar pedestres e ciclistas que não utilizarem o espaço público “corretamente”? Mas que espaço?! As migalhas sem as mínimas condições de uso, especialmente aos que apresentam restrições de mobilidade?

     
     

A realidade sofrida de pedestres e ciclistas. Fotos de Brasília (parte superior) e Belém (parte inferior).

A intenção é tratar as pessoas como objetos, tal como os automóveis? Teremos placas com letras e números para nos identificar e uma carteira de habilitação recebida após o curso de como ser pedestre, oferecido pelo Detran, ministrado por motoristas servidores do órgão? A Carteira Nacional de Pedestre (CNP) será suspensa caso não atravessemos na faixa que, muitas vezes, não existe ou está mal localizada?

Haverá ainda curso para habilitar os ciclistas, que terão a Carteira Nacional de Ciclista (CNC), suspensa após se aventurarem na contramão em via sem qualquer espaço para os seres desprovidos de motor? Para completar, nós, pedestres e ciclistas, teremos que pagar o imposto anual chamado de IPMA (Imposto sobre Pessoas com Mobilidade Ativa)?

Espere aí! Mobilidade ativa agora é sinônimo de problema? O engraçado é que, com o espírito de cachorro vira-lata que temos, não conseguimos importar dos países desenvolvidos as ideias, de fato, relevantes, tais como pensar cidades para pessoas e não para carros, de acordo com os preceitos de Jane Jacobs, Jan Gehl e Jeff Speck, que nos brindaram com ótimas referências de planejamento urbano: Morte e Vida de Grandes Cidades, Cidades para Pessoas e Cidade Caminhável.

Em cidades europeias que, há décadas, têm planejado para as pessoas destaca-se a infraestrutura de ótima qualidade para se caminhar e pedalar. É nítida a distribuição justa do espaço, com prioridade ao transporte coletivo e à mobilidade ativa. Baixo limite de velocidade, sinalização voltada à segurança de pedestres e ciclistas e restição ao automóvel, especialmente na área central, compõem o ambiente humanizado.

   

Amsterdã (à esquerda) e Copenhague (à direita): bons exemplos em mobilidade urbana.

É, nosso país além de sofrer de colesterol urbano, “acúmulo, em nossas veias e artérias, do uso excessivo do automóvel” (segundo Jaime Lerner), não contente, quer que a população sofra também de transtorno psicótico urbano. Ou seja, percepções falsas, tais como ouvir, ver e sentir algo que não existe, como se pedestre ou ciclista fosse algo danoso à cidade e, deste modo, passassem a adoecer em razão do caos urbano?

A recente decisão de regulamentar os artigos do Código de Trânsito que tratam da punição de pedestres e ciclistas, por meio da Resolução do Contran n° 706/2017, mostra-se inoportuna e inadequada. A infraestrutura precária aos seres desprovidos de motor e o ambiente urbano voltado ao rei automóvel obrigam pedestres e ciclistas a cometerem aparentes infrações. Mas as aparênicas enganam e, muitas vezes, a conduta decorre da opressão urbana contra pedestres e ciclistas, dos inúmeros percalços no caminho: calçadas destruídas e invadidas por carros, rampas inexistentes ou bloqueadas, calçadas e ciclovias sem continuidade.

   

Pedestres e ciclistas dividem espaço com os carros por necessidade. Fotos de Brasília.

Em vez de punições, precisamos dar incentivos à mobilidade ativa. Pessoas de qualquer idade deveriam se sentir seguras ao se deslocar para a escola ou para o trabalho. Precisamos de cidades humanizadas, com mais pessoas caminhando e pedalando, o que traria benefícios à sociedade (menos congestionamentos e poluição) e benefícios individuais (qualidade de vida, saúde e economia). Vale lembrar que o país se destaca não só pelo colesterol urbano, mas também pelo colesterol humano, com índices crescentes de obesidade.

Por fim, esperemos que nossos filhos e netos não tenham que alterar a escrita da nossa bandeira para Desordem e Retrocesso.

 

SAIBA MAIS:

Pedestres em apuros na capital federal (VÍDEO)

Imobilidade no início da Asa Sul (VÍDEO)

Nota Pública contra a decisão de multar pedestres e ciclistas

A UCB (União de Ciclistas do Brasil) e a associação Cidade a Pé publicaram nota contra a resolução do Contran, assinada por várias entidades apoiadoras:

http://www.uniaodeciclistas.org.br/manifestacoes/injusto-multar-pedestres-e-ciclistas/

https://cidadeape.org/2017/10/27/nota-publica-injusto-multar-pedestres-e-ciclistas/

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