Ratos e atletas no final da W3 Norte

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Na capital federal, milhares de homens e mulheres andam como ratos (e com os ratos) e correm como atletas nos trajetos diários.

No final da W3 Norte, entre o setor hospitalar e o boulevard shopping, as pessoas enfrentam uma saga diária nos canteiros e nas calçadas destruídas.

Não bastasse a ausência de calçadas, evidenciada pelos inúmeros “caminhos de rato” nos canteiros (caminhos demarcados pela passagem de pedestres), ainda se tem que dividir espaço com lixo e roedores.

   

Calçadas destruídas e correria para atravessar e chegar vivo ao outro lado.

   

Neste ponto a calçada está repleta de lixo e de ratos.

Para completar, um dos poucos semáforos em que daria para atravessar com certa segurança leva muito tempo para liberar passagem ou fica desativado, possivelmente para dar maior fluidez motorizada. O vídeo revela o sufoco para atravessar no final da W3 Norte. É necessário vigor físico de atleta!

E o que dizer dos pontos de ônibus? Lotados, escuros, sem acessibilidade e sem informações sobre linhas e horários.

Escuridão e superlotação nos pontos de ônibus do final da W3 Norte.

   
   

Superlotação, abandono e inacessibilidade nos pontos de ônibus da região.

 

– Obras do TTN (“Terrível Trevo Norte”)

A poucos metros de onde as calçadas estão destruídas e largadas aos ratos, avançam as obras do TTN. Muitos tratores devastam canteiros e aterram as margens do lago Paranoá para construir dezenas de túneis e viadutos.

Imagem aérea mostra a devastação causada para construir mais pistas e viadutos. Fonte: Agência Brasília.

A contradição é óbvia: enquanto pedestres e usuários de ônibus estão em situação de completo abandono e insegurança, a obra milionária vai incentivar ainda mais o transporte automotivo e certamente vai aumentar o nível de insegurança e desconforto dos pedestres, afinal haverá mais pistas e viadutos para atravessar na saga diária.

Os canteiros no final da W3 Norte estão com marcações e árvores pintadas (possivelmente, marcadas para morrer), o que indica que as obras do TTN avançarão nos caminhos traçados pelos pedestres.

   

Árvores pintadas e canteiros demarcados: avanço das obras do TTN.

Dá para ter noção do nível de insanidade e atraso do modelo de transporte rodoviarista (centrado no rei automóvel) ainda vigente no DF ao constatar a desproporção entre ônibus e carros na ponte do Bragueto. Todo dia, milhares de carros enchem as pistas e vêm para a capital federal, os ônibus passam abarrotados de gente e sem qualquer prioridade na via.

Na ponte do Bragueto, desproporção entre carros e ônibus.

Ao conversar com pessoas que usam ônibus e passam pela região, constatei que alguns acham que as escavações em andamento têm por objetivo expandir o metrô até a região norte do DF. Em razão da dimensão das obras e da falta de informações no local, é compreensível o equívoco, a ilusão de achar que se trata de melhorias no transporte coletivo.

Será que um dia iremos reverter o modelo rodoviarista atrasado e seguir no rumo certo, da mobilidade moderna e saudável, em que se priorizam os modos de transporte coletivos e ativos e detrimento do modelo centrado no carro?

VÍDEOS:

Pedestres Atletas no final da Asa Norte

Caminhos de Rato, Ratos no Caminho

Travessia difícil no Setor Hospitalar

Cenas do final da Asa Norte – Ponte do Bragueto

 

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De bicicleta na Rodoviária do Plano

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Todo dia milhares de pessoas passam pela rodoviária do Plano Piloto, que concentra diversas linhas de ônibus e onde fica a estação central do metrô. Atualmente, em vez de ser um ponto seguro de conexão entre as ciclovias da área central, a rodoviária se transformou numa barreira ao ciclista.

As ciclofaixas estão totalmente apagadas e invadidas por carros e ônibus, tanto na parte norte, quanto na parte sul. Em 2014 ainda se via a ciclofaixa, que se apagou e não teve manutenção ao longo dos anos. As fotos abaixo, tiradas nos mesmos pontos, comparam a situação em 2014 e neste ano.

   

Rodoviária do Plano em 2018: ciclofaixas inexistentes e carros no caminho.

   

Em 2014, as ciclofaixas estavam em bom estado.

Além dos bloqueios, os buracos e as irregularidades do piso comprometem a segurança do ciclista, especialmente à noite.

   

Fendas em gradil representam armadilhas aos ciclistas.

O estado de abandono é visível ao longo das ciclovias no entorno da rodoviária. Os cruzamentos também dificultam bastante o caminho: falta sinalização de alerta aos motoristas e sempre há carros e ônibus no caminho. Em vídeo deste ano mostro as péssimas condições para circular e estacionar na rodoviária do Plano Piloto.

   

No entorno da rodoviária do Plano, ciclovia destruída e bloqueada.

– Cadê o bicicletário?! 

   

Por ser o principal terminal de transporte coletivo, a rodoviária do Plano deveria ser atrativa ao uso da bicicleta integrada ao ônibus e ao metrô. No entanto, o bicicletário que já era inadequado (com suportes frágeis, sem cobertura e sem controle de acesso) ficou ainda pior. Atualmente, o espaço está interditado e com suportes destruídos.

Em consequência das péssimas condições, os ciclistas improvisam na hora de estacionar e recorrem a lixeiras e outros pontos que permitem prender a bicicleta. Há que se considerar ainda as pessoas que simplesmente deixam de usar bicicleta em razão da falta de bicicletário.

   

Improviso na hora de estacionar.

A situação de abandono compromete não só a possibilidade de integração com o transporte coletivo, mas também afeta os usuários e funcionários das lojas e dos serviços oferecidos na rodoviária, a exemplo do Na Hora e do posto do DFTrans, que não dispõem de local seguro de parada caso usem bicicleta.

Vale lembrar que há duas leis específicas sobre bicicletários no DF: a Lei Distrital n° 4.423/2009 e a Lei Distrital n° 4.800/2012. A lei de 2009 estabelece “a obrigatoriedade da instalação de estacionamento de bicicletas em locais de grande afluxo de público no Distrito Federal” e a lei de 2012 obriga a instalação de bicicletários em estações de metrô e em locais que atraiam grande quantidade de pessoas.

Outras leis também têm por objetivo incentivar o uso de bicicleta (clique para acessar leis que tratam de mobilidade urbana), a exemplo da Lei Distrital n° 3.885/2006 (Política Cicloviária de incentivo ao uso da bicicleta) e da Lei Distrital n° 4.397/2009 (Sistema Cicloviário), e podem fundamentar melhorias nas condições de acesso e de parada na rodoviária do Plano Piloto.

Além da obrigatoriedade de bicicletários prevista em leis, o Plano de Ciclomobilidade (clique para acessar detalhes sobre o programa) lançado pelo GDF em 2017 prevê a instalação de bicicletários em terminais de ônibus.

Previsão de bicicletários  no Plano de Ciclomobilidade do GDF

– Mapeamento de ciclovias

Em 2015, a Secretaria de Mobilidade (Semob) realizou oficina colaborativa para mapeamento das ciclovias no DF, com os seguintes objetivos: identificar as ciclovias, os pontos de interesse (ex.: bicicletários e oficinas), pontos frágeis (ex.: falta de sinalização e buracos) e pontos positivos.

O trabalho realizado (clique para conferir a apresentação) mostra levantamento da Semob na ciclovia do Eixo Monumental e aponta o problema de descontinuidade na rodoviária do Plano Piloto.

Mapeamento elaborado pela Semob aponta falha na ciclovia próxima à rodoviária do Plano Piloto.

Pelo mapeamento realizado conclui-se que o atual governo tem ciência do grave problema na infraestrutura cicloviária desde maio de 2015. No entanto, passados quase três anos, não houve qualquer providência para garantir segurança aos ciclistas que passam pela rodoviária do Plano Piloto.

Vale destacar que o problema na rodoviária do Plano não é apenas a inexistência de infraestrutura cicloviária, como afirmado no trabalho de mapeamento. Outro problema evidente é a falta de manutenção da infraestrutura, afinal existiam ciclofaixa e bicicletário.  As fotos de anos anteriores mostram a sinalização voltada aos ciclistas, que se apagou, e o bicicletário, que se deteriorou e está com acesso bloqueado.

Sinalização de alerta para a passagem de ciclistas em 2014, na rodoviária do Plano.

Situação do bicicletário da rodoviária do Plano em 2011.

– Incentivos à integração da bicicleta ao transporte coletivo

Há muitos bons exemplos de incentivo à integração intermodal no exterior e no Brasil. Mauá, no interior de São Paulo, é referência mundial por oferecer 2 mil vagas aos ciclistas ao lado da estação de trem. Além das vagas, o bicicletário mantido pela associação Ascobike possui oficina, compressor de ar e outras facilidades aos ciclistas. Outro exemplo que pode ser mencionado é o da Prefeitura de São Paulo, que instalou bicicletários gratuitos – abertos 24 horas e com controle de acesso – em diferentes pontos da cidade, próximos aos terminais de transporte coletivo.

   

Bicicletários associados ao transporte coletivo em Mauá e em São Paulo.

No exterior há inúmeros exemplos de cidades que incentivam a integração da bicicleta ao transporte coletivo. Na Holanda e na Dinamarca, países de referência em mobilidade moderna e sustentável, existem grandes bicicletários em volta das estações de metrô e vagas próximas aos pontos de ônibus e espalhadas por toda as cidades.

   

Muitas vagas para bicicletas: cena comum em cidades da Holanda.

No Distrito Federal, apesar das belas leis e dos programas governamentais bem intencionados e ilustrados, faltam incentivos ao uso de bicicleta como meio de transporte, individualmente ou associada ao transporte coletivo. Além das melhorias na infraestrutura (ciclovias seguras e bicicletários adequados), devem-se promover mudanças culturais de forma a atrair mais pessoas para a mobilidade saudável.

O próprio Poder Público deveria dar exemplo com ações inovadoras. Em vez de simplesmente propor centenas de quilômetros de ciclovia e instalar milhares de vagas para bicicletas, a cúpula do GDF (governador, secretários de estado e diretores dos órgãos de trânsito) poderia adotar o transporte integrado no dia a dia. Em vez de carro oficial, cada gestor público receberia Bilhete Único e passe livre para o sistema de bicicletas compartilhadas.

Da mesma forma, os órgãos da esfera federal poderiam aderir à ação inovadora e impulsionar o transporte integrado. É curta a distância entre a rodoviária do Plano Piloto e os Ministérios, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF, entre outros órgãos ao longo da Esplanada dos Ministérios. No trajeto plano e com ciclovia pode-se apreciar com calma, sem congestionamentos, a beleza arquitetônica.

Ciclovia da Esplanada dos Ministérios: bela vista e baixo fluxo de ciclistas.

Além de reduzir o caos crescente em razão da megafrota de carros em circulação, as ações de incentivo ao uso integrado da bicicleta trariam vários outros benefícios, tais como: redução do sedentarismo e do estresse; menor demanda por estacionamentos para carros; maior segurança para pedalar (com mais bicicletas nas ruas, a segurança aumenta); estímulo ao mercado de bicicletas (fábricas, lojas e oficinas).

 

VÍDEOS:

De bicicleta na rodoviária do Plano Piloto

Bicicletário de Mauá – ótimo exemplo de incentivo às bicicletas

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

 

Fórum da Água ou Fórum da Inacessibilidade?

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

   

Ao passar pelos arredores do estádio, fiz registros do Fórum Mundial da Água com o viés da imobilidade e inacessibilidade. Desde a realização da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016), acompanho a (i)mobilidade em eventos realizados na região.

Apesar das promessas de legado dos megaeventos, a exemplo do VLT, o que se vê são calçadas e ciclovias destruídas e sem continuidade, transporte coletivo precário e sem prioridade, e alta dependência do automóvel.

   

Caos nas proximidades do estádio. Ponto de ônibus abandonado e sem uso.

No Fórum Mundial da Água, realizado entre 18 e 23 de março, a inacessibilidade e o caos foram nítidos e devem ter surpreendido os turistas que imaginavam uma cidade moderna. Mesmo após quase cinco anos da realização do 1º megaevento (Copa das Confederações) no bilionário estádio Mané Garrincha, o cenário é desolador.

   

Em frente ao bilionário estádio, muitas crateras e lama.

Às vésperas do início do evento, notei um autêntico serviço para gringo ver: pintura do meio-fio em toda a região em volta do estádio. Os participantes do evento não teriam calçadas nem condições mínimas de acessibilidade, mas poderiam admirar o caminho pintado.

   

Mutirão da pintura: serviço “pra gringo ver” no entorno do estádio.

Apesar do intenso movimento de pessoas a pé durante os eventos, faltam calçadas e pontos de travessia.

   
   

Sem calçadas e sem pontos de travessia.

A calçada ao longo do Eixo Monumental, próxima ao estádio, ficou inacabada. Teria faltado recurso para concluir a calçada?

   
 

Calçada inacabada, sem continuidade.

Na calçada em frente ao Centro de Convenções faltam rampas de acesso, o que obriga os cadeirantes a andarem na rua e evitarem a calçada.

   

Ausência de rampas nas calçadas em frente ao Centro de Convenções.

Além da falta de rampas de acesso, há carros e bloqueios no caminho. Os próprios órgãos de fiscalização instalam bloqueios no espaço reservado aos pedestres, ou permitem o bloqueio, como um ônibus de turismo na calçada do Eixo Monumental.

   

Bloqueios dificultam a passagem de pedestres.

Outro grande motivo de desconforto foi o calor, agravado pela grande área impermeabilizada em volta do estádio, com distâncias longas e sem sombra entre a vila cidadã, o centro de convenções e o setor hoteleiro.

 

– Caminho entre o setor hoteleiro e o estádio

A distância entre os hotéis da área central e os locais para realização de grandes eventos (estádio, centro de convenções e ginásio) é curta e favorável à caminhada. No entanto, o percurso a pé se torna uma verdadeira saga em razão das inúmeras crateras, da lama e dos carros no caminho.

   
   

Muitas armadilhas no trajeto: buracos e lama aos turistas.

   
   

Calçadas convertidas em local de circulação e estacionamento para carros, sem faixas de travessia.

   

Rampa improvisada e deteriorada no Setor Hoteleiro. Nas travessias, faltam faixas de pedestre.

– Cadê o bicicletário?!

Apesar de se vangloriar como capital brasileira das ciclovias, falta muito para se incentivar o uso de bicicleta em Brasília. Não bastassem a falta de continuidade das ciclovias e as falhas graves de sinalização e iluminação, falta até mesmo um simples bicicletário para atender aos torcedores e participantes de eventos no estádio.

No dia em que visitei a Vila Cidadã, perguntei a três pessoas da organização sobre local para estacionar. A resposta foi bem clara: não tem bicicletário no evento! O jeito foi improvisar: acabei estacionando atrás da tenda armada para fazer a triagem dos resíduos sólidos.

   

Vila Cidadã sem espaços para os cidadãos ciclistas.

Quando postei no facebook sobre a falta de bicicletário, outros ciclistas relataram que também precisaram improvisar na hora de estacionar. Andrea Piña relatou a experiência ao ir de bicicleta para o Fórum: “Fui com minha filha e me deparei com este absurdo! Tive que acorrentar a bicicleta no tapume e o segurança disse que ia olhar”.

Foto enviada por Milvo Rossarola.

Foto enviada por Andrea Piña.

É curioso observar que o espaço do antigo “bicicletário” do estádio (entre aspas, pois o espaço era inadequado: com suportes frágeis, sem cobertura e sem controle de acesso) foi convertido em mais vagas para carros.

No lugar do “bicicletário”, mais vagas para carros.

Mais uma bicicleta em local improvisado, no Fórum da Água.

Ao passar pela região e conferir a (i)mobilidade nos megaeventos, pude registrar a progressiva deterioração do “bicicletário” até se transformar oficialmente (com vagas demarcadas) em estacionamento para carros.

Sem vagas para bicicletas e sem ciclovias conectadas e seguras. Nos arredores do estádio, falta conexão entre as ciclovias. No início da Asa Norte, próximo à 5ª delegacia de polícia a ciclovia dá uma volta no canteiro sem ligação com o estádio, a torre de TV ou o setor hoteleiro. Para piorar, há muitos trechos de ciclovia destruídos.

Em contraste com a ampla pintura de meio-fio, não houve pintura nos cruzamentos. Ao longo do Eixo Monumental os cruzamentos da ciclovia nunca foram pintados, ou estão com a pintura apagada. A falta de sinalização (pintura e placas de alerta para a passagem de ciclistas) contribui para os bloqueios constantes no caminho.

   
   

No entorno do estádio, ciclovias destruídas, sem sinalização e bloqueadas.

 

– Dependência automotiva

As péssimas condições a quem depende do transporte coletivo, caminha e pedala contribuem para aumentar a dependência do carro. Pistas largas e amplos estacionamentos gratuitos tornam atrativa opção pelo carro para chegar ao evento.

   

Facilidade para chegar de carro: vagas gratuitas e em grande quantidade.

Nota-se que os megaeventos não resultaram em melhorias na mobilidade urbana e na acessibilidade. Mais uma vez, Brasília sediou um evento internacional e deixou como legado calçadas destruídas, desconexas e inacabadas; ciclovias desconexas; bicicletário convertido em vagas para carros; transporte coletivo insatisfatório, sem prioridade para circular nas seis pistas do Eixo Monumental.

Em manifestação registrada em janeiro deste ano na ouvidoria do GDF (disponível na seção do blog com as solicitações protocoladas), relatei os problemas de inacessibilidade no setor hoteleiro norte. Incluí 12 fotos para ilustrar os problemas e pedi providências para aumentar o conforto e a segurança dos pedestres. Se o governo tivesse atendido às solicitações, certamente os turistas deixariam Brasília com melhor impressão.

Espero que, um dia, o governo traga não só grandes eventos, mas também importe grandes ideias de como promover fóruns, shows e jogos com bons níveis de mobilidade e acessibilidade, com turistas caminhando sem tropeços e com legado positivo aos moradores.

 

SAIBA MAIS:

Brasília – imobilidade monumental a pedestres e ciclistas

Vídeo mostra bloqueios e inacessibilidade em evento realizado no Centro de Convenções em 2016.

De bicicleta no novo estádio Mané Garrincha

Vídeo revela a dificuldade de ir de bicicleta ao estádio, em jogo realizado em 2013.

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

Vídeo de 2018 revela as péssimas condições aos pedestres na Esplanada dos Ministérios.

Álbum completo com as imagens do Fórum da Água e do entorno do estádio

Imobilidade Feminina: sem motivos para celebração

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

No campo da mobilidade urbana, não há o que celebrar no Dia Internacional da Mulher. Caminhei e cliquei no dia 8/3 e as cenas revelam uma cidade difícil. A mulher caminhante sofre na capital “moderna”. Além das muitas crateras e da ausência de calçadas, ainda se tem que desviar dos muitos obstáculos (lixo, carros e postes) no caminho.

   
   

Calçadas e canteiros invadidos por carros e rampas bloqueadas.

Mesmo a área central, “moderna”, é altamente hostil a quem passa a pé, especialmente em razão da farra motorizada, com carros espalhados por todos os cantos (calçadas, canteiros e outros locais proibidos).

É emblemática a inacessibilidade na Esplanada dos Ministérios, no entorno dos Poderes da República. Não bastasse a péssima qualidade das calçadas e ciclovias, há sempre carros no caminho, estacionados de forma irregular, bloqueando calçadas, rampas e ciclovias. Em vez de carros estacionados o dia inteiro, poderiam ser criados espaços compartilhados entre pedestres e ciclistas, o que garantiria caminho livre e seguro aos moradores e turistas.

   
   

Calçadas, quando existentes, são inadequadas ou estão bloqueadas. Ciclovia com várias rachaduras e sem continuidade.

   
   

Farra motorizada e péssima distribuição do espaço urbano: carros por todos os cantos em volta dos Poderes da República.

As crateras e os percalços no caminho têm sido denunciados todo ano, especialmente em abril, quando ocorre a campanha nacional Calçada #Cilada. Mais de 200 queixas foram registradas no ano passado. O Brasília para Pessoas encaminhou ao GDF as fotos e os detalhes das armadilhas registradas pelos cidadãos. Infelizmente, não houve providências e as crateras só aumentam.

No início da Asa Norte, próximo ao hospital regional (HRAN) e a vários centros clínicos, a dificuldade de caminhar é enorme. Então, só resta às pedestres andar na rua, entre os carros. Ou caminhar pelos canteiros enlameados.

   
   

No Setor Médico-Hospitalar (Asa Norte), faltam caminhos acessíveis às pedestres. E sobram carros nos canteiros.

Como se percebe nas caminhadas, todo o Plano Piloto é inacessível e repleto de crateras. Do início da Asa Norte até o final, assim como ao longo de toda a Asa Sul, depara-se com muitas calçadas destruídas e invadidas por carros. Outro problema frequente – e fácil de resolver – é a ausência de rampas.

   
   

Mais crateras e obstáculos: ao longo da Asa Norte o caminho é difícil.

Na volta para casa, pontos de ônibus precários e lotados. Longa espera nos pontos e ônibus abarrotados de gente.

   

Pontos de ônibus lotados na W3 Norte.

– Violência no trânsito contra mulheres (contra pedestres em geral)

Ao caminhar pela cidade, observa-se maior imprudência e intolerância. Motoristas avançam o sinal vermelho onde não há radares, ignoram a preferência na faixa e buzinam ao avistar um pedestre ou ciclista no caminho.

O vídeo-flagrante no início da W3 Sul mostra não só a agressividade dos motoristas em região com fluxo intenso de pedestres, mas também a omissão governamental. No final de 2016, o órgão de trânsito pintou a faixa de travessia, mas acabou apagando a faixa poucos dias depois.

Vídeo gravado em 7/3/2018 revela a hostilidade dos motoristas em local com grande movimento de pessoas a pé (clique para assistir ao vídeo).

Os dados recentes de mortes e atropelamentos comprovam a hostilidade nas ruas. Segundo reportagem do Jornal de Brasília, na semana em que se celebrou o Dia Internacional da Mulher três mulheres foram atropeladas, duas morreram. Uma delas foi esmagada por carro em alta velocidade, que invadiu a calçada da Esplanada dos Ministérios.

Jornal de Brasília, 9/3/2018 (clique para ler a reportagem na íntegra).

Vale lembrar outro atropelamento ocorrido na Esplanada dos Ministérios, que matou uma mulher. Em outubro de 2017, um motociclista atropelou e matou Beatriz de Souza Santos, de 56 anos, próximo ao Congresso Nacional e ao Palácio do Planalto. Segundo a perícia realizada, o motociclista – que também faleceu – estava a 245 km/h!

– Visão moderna de cidade

Na visão de cidade humana e moderna, os limites de velocidade se reduzem e os espaços para caminhar se ampliam. As cidades modernas investem no transporte coletivo e restringem o uso do carro. Pistas e estacionamentos cedem espaço para praças e ciclovias.

Assim, as cidades se tornam mais seguras e convidativas para se caminhar e pedalar e se veem muitas mulheres e crianças nas ruas, a pé, de bicicleta ou outros meios saudáveis de transporte.

   

Em Brasília, ocorre o movimento contrário: calçadas e canteiros viram estacionamentos. O governo local amplia vias e constrói túneis e viadutos, e ainda oferece curso gratuito para as pessoas superarem o medo de dirigir.

O misterioso sumiço das bolas (balizadores) na Asa Sul

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

O que terá acontecido com os balizadores da Asa Sul (via W5), em frente a um dos acessos do Parque da Cidade? Ao passar pelo local, percebi que os seis balizadores sumiram.

   

Em fevereiro os balizadores estavam lá. Em março, haviam sumido.

Seria uma intervenção para, em breve, a calçada ser convertida em estacionamento? Ou alguém surrupiou as enormes bolas de concreto?

Após divulgar as fotos em rede social, uma servidora da SEGETH (Secretaria de Gestão do Território e Habitação do Distrito Federal) informou que os autores do projeto entenderem não serem necessários balizadores nas travessias, pois acabavam atrapalhando os pedestres e ciclistas. Então, solicitaram o remanejamento das esferas.

No início da W3 Sul foram instalados balizadores em muitos pontos no ano passado, que ajudam a conter a farra do estacionamento irregular sobre calçadas e canteiros.

   

Balizadores instalados no início da Asa Sul.

Com a retirada das esferas há risco de as calçadas se tornarem estacionamento, como ocorre em vários pontos da Asa Sul, a exemplo do Setor de Rádio e TV. Nota-se que, além das calçadas, canteiros e pontos de ônibus são invadidos pelos mautoristas na região.

   
   

Calçadas, canteiros e pontos de ônibus invadidos no início da Asa Sul: necessidade de conter a farra motorizada.

 

Considerando o desrespeito observado diariamente, seria melhor que, em vez de retirados, fossem instalados ainda mais balizadores. Numa cidade dominada por carros, as bolas garantem caminhos livres a pedestres e ciclistas.

Talvez seja o caso de instalar balizadores menores ou avaliar previamente os locais e ajustar a distância entre balizadores. Assim, evita-se a farra automotiva sem comprometer o conforto dos que caminham e pedalam.

Caminhos em ruínas – omissão vergonhosa em Brasília

Texto e fotos: Uirá Lourenço

   

A recente queda de viaduto no Eixão leva a reflexões. Por todo o Distrito Federal, a situação é de abandono. Para quem caminha, pedala e usa ônibus os caminhos já ruíram há muitos anos.

O Brasília para Pessoas mostra o descaso regularmente. Além dos registros em fotos e vídeos e das solicitações enviadas ao GDF (por exemplo, pedidos de faixas de pedestre, reforma de calçadas e propostas de melhoria em ciclovia), apoiamos todo ano a campanha nacional Calçada #Cilada, que incentiva os cidadãos a denunciarem, por meio de aplicativo de celular, as crateras e os problemas ao caminhar. As centenas de denúncias encaminhadas ao GDF não resultaram em melhorias aos pedestres.

Promovemos as caminhadas Jane’s Walk (duas edições por ano, em maio e setembro), em que debatemos as questões urbanas com destaque para a mobilidade e a acessibilidade, e o Salto de Crateras, uma forma lúdica de chamar atenção para as calçadas deterioradas que se alastram pela cidade. Apesar das ações promovidas e das solicitações de providências, o descaso continua ao longo dos anos, nos diferentes governos. Nota-se que o descaso com o pedestre é apartidário.

   

Crateras avantajadas em diversos pontos da área central de Brasília.

   

Pedestres sem calçadas e sem faixas de travessia próximo ao bilionário estádio.

O caminho dos ciclistas também está em ruínas. A falta de conexões entre as ciclovias, a falta de sinalização, de manutenção e de iluminação e os inúmeros bloqueios são facilmente notados. Basta um trajeto curto de bicicleta na área central para constatar os problemas. Nem precisar ir até a EPTG (“Linha Verde”) para conferir as contradições entre o enorme espaço voltado ao transporte automotivo (com alto limite de velocidade) e a total ausência de espaço a pedestres e ciclistas. A análise detalhada da ciclovia na Asa Norte, elaborada e protocolada em diversos órgãos do GDF em junho de 2015, reuniu imagens e análises do trajeto e apresentou propostas de melhoria, mas ficou engavetada, sem qualquer providência.

   
Interrogações questionam a falta de continuidade nas ciclovias da EPIG (Sudoeste) e da W4 Norte.

 

Ciclovia com várias rachaduras e sem continuidade: realidade em todo o DF.

Ciclista disputa espaço com carros em alta velocidade na EPTG (“Linha Verde”).

Outro ponto que vale destacar é a omissão relativa à educação e à fiscalização no trânsito, que resulta em invasão de canteiros, calçadas e ciclovias e em bloqueios diários no caminho de pedestres, ciclistas e usuários de ônibus. Cada vez mais, a capital federal se transforma num enorme estacionamento e, assim, a Cidade Parque se transforma em Cidade Parking.

A pedido de servidores da Secretaria de Mobilidade e do Detran-DF fiz, em 2016 e em 2017, levantamento de locais críticos com estacionamento irregular. Além do levantamento com indicação dos locais, criei álbum com dezenas de imagens das infrações e do estado de inacessibilidade. No entanto, o trabalho realizado não resultou em ações práticas de melhoria.

   
Bloqueios de rampas: as infrações ocorrem diariamente em diversos pontos.
   
Ciclovias bloqueadas: riscos e desconforto aos ciclistas.
   
Pontos de ônibus invadidos por carros no Setor Comercial Sul e em frente ao Conjunto Nacional.
   
Canteiros e calçadas invadidos por carros: cena comum em toda a área central de Brasília.

Aos que usam o transporte coletivo, a situação é de calamidade: ônibus superlotados, pontos sem abrigo, falta de informações sobre linhas e horários, escassez de corredores exclusivos e não cumprimento das promessas de linhas de VLT, expansão do metrô e trens regionais entre o Distrito Federal e cidades de Goiás. Em 2014, durante a campanha eleitoral para governador, Rollemberg fez muitas promessas ao transporte coletivo (vídeo).

   
   

Sufoco na volta para casa: filas e pontos de ônibus lotados e, muitas vezes, sem abrigo.

No início da Asa Sul, nas proximidades do viaduto que desabou, produzi vídeo em junho de 2017 para revelar as péssimas condições aos pedestres e ciclistas. O cenário é desolador: faltam calçadas, pontos seguros de travessia e caminhos para ciclistas. Sobram crateras e agressividade no trânsito. Em fevereiro de 2018, após a queda de parte do Eixão Sul, na mesma semana os tratores estavam no local para rasgar canteiros em obras para aumentar a fluidez motorizada. A quem passa a pé e precisa pegar ônibus ou metrô, muitas crateras e lama no caminho. Curiosamente, foi instalada placa para orientar a travessia por baixo, mas as calçadas destruídas e as escadas dificultam ou mesmo impedem a travessia pela passagem subterrânea.

   
   

Obras “emergenciais” voltadas ao transporte automotivo contrastam com as péssimas condições aos pedestres em volta do viaduto que desabou.

A rodoviária do Plano Piloto, no início da Esplanada dos Ministérios, é a síntese perfeita do abandono.  O descaso com quem anda e depende do transporte coletivo é evidente. Bem próximo aos Poderes da República (Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal) e ao lado de atrações turísticas como a Catedral e o Museu da República, a inacessibilidade é total e contrasta com as belas leis (federais e distritais), que garantem acessibilidade e prioridade aos modos ativos (“não motorizados”) e coletivos de transporte.

   

Crateras, lama e muitas filas na rodoviária do Plano Piloto, Esplanada dos Ministérios.

E o que dizer da integração entre a bicicleta e o transporte coletivo, incentivada em cidades modernas? No principal terminal urbano, a rodoviária do Plano Piloto, que concentra diversas linhas de ônibus e de onde saem as duas linhas de metrô, o espaço para bicicletas, que já era péssimo (descoberto, sem controle de acesso e com suportes destruídos), atualmente se encontra totalmente deteriorado e com acesso bloqueado por tapumes. Faltam vagas para os ciclistas e faltam caminhos de ligação pela rodoviária: as ciclofaixas de antes estão apagadas e invadidas por carros e ônibus.

   
   

Na rodoviária do Plano Piloto, péssimas condições aos ciclistas: “bicicletário” interditado e com suportes destruídos; ciclofaixa apagada e invadida por carros e ônibus.

– De quem é a responsabilidade?

Gostaria de ver as autoridades se manifestarem sobre os motivos de tanta omissão ao longo de vários anos. Não bastassem as leis federais – em especial, o Código de Trânsito e a Política Nacional de Mobilidade Urbana –, várias leis distritais tratam da mobilidade urbana.

A Lei Distrital n° 3.885, de 2006, já assegurava a “mobilidade urbana sustentável”, “socialmente inclusiva e ecologicamente correta”, com “priorizações dos modos de transporte coletivo e não motorizado”. O Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade no DF, de 2011, tem entre os objetivos: “reduzir a participação relativa dos modos motorizados individuais”; “desenvolver e estimular os meios não motorizados de transporte”; “reconhecer a importância dos deslocamentos de pedestres e ciclistas, com proposições adequadas às características da área de estudo”; “proporcionar mobilidade às pessoas com deficiência ou restrição de mobilidade”; “priorizar, sob o aspecto viário, a utilização do modo coletivo de transportes e a integração de seus diferentes modais”. A Lei Distrital n° 4.397, de 2009, criou o Sistema Cicloviário e determinou: “As novas vias públicas, incluindo pontes, viadutos e túneis, devem prever espaços destinados ao acesso e circulação de bicicletas, em conformidade com os estudos de viabilidade.”

No programa do atual governador há um capítulo voltado à mobilidade urbana, com objetivos condizentes com a mobilidade moderna, tais como: “Ampliar o uso de bicicletas para deslocamentos diários casa-trabalho e casa-escola”; “Facilitar o uso das calçadas pelos pedestres”; “Promover acessibilidade para as pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção”; “Propor a criação de um novo arranjo institucional para o sistema de mobilidade urbana e semiurbana, que defina as atribuições de cada um dos governos da Área Metropolitana de Brasília (AMB), e que tenha o modal ferroviário como preferencial”.

Conclui-se que o rumo tomado pelos seguidos governos, ao priorizar o transporte individual motorizado e deixar às mínguas o transporte coletivo e a mobilidade ativa, está na contramão do que determinam as leis e do que está disposto no programa de governo. E não dá para alegar falta de recursos, afinal as obras rodoviaristas do TTN (conjunto de pistas, túneis e viadutos no norte do DF) têm custo inicial de R$ 207 milhões. A EPTG (“Linha Verde”) passou por mega-ampliação com custo superior a R$ 300 milhões.  Quantos quilômetros de calçadas daria para reformar com os recursos gastos nas seguidas ampliações viárias? Quantos abrigos de ônibus e quantos quilômetros de VLT daria para construir?

Após o desabamento do viaduto, o governador e o diretor do DER tiveram que se manifestar publicamente sobre a falta de manutenção dos viadutos. Quem dará declarações e assumirá a responsabilidade pelo evidente – e fartamente registrado – estado de abandono nos caminhos de quem anda, pedala e depende do transporte coletivo?!

 

VÍDEOS SOBRE A IMOBILIDADE EM BRASÍLIA:

 Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília:

Imobilidade e rodoviarismo no norte do DF:

Missão Impossível: Travessia na EPIG:

 

Dever cidadão: solicitações de melhoria na mobilidade

Andar e pedalar são formas prazerosas de apreciar a capital federal.  No entanto, há desafios ao percorrer a cidade. Tenho o hábito de registrar os obstáculos no caminho e enviar propostas de melhoria aos órgãos governamentais, na esperança de obter providências que humanizem a cidade.

O Brasília para Pessoas mantém seção específica que reúne as solicitações de providências e os pedidos de informações sobre mobilidade urbana. O espaço é aberto para colaborações de pessoas que também se incomodam com o nível de inacessibilidade e, no ano passado, publicamos dados e pedidos de providência diversos, tais como: informações sobre investimentos em calçadas, estacionamento rotativo, concurso de arquitetura para as passagens subterrâneas no Eixão; solicitações de melhorias na acessibilidade e de redução do limite de velocidade e de aumento da segurança para pedestres e ciclistas.

Em geral, gestores públicos e planejadores se enclausuram em gabinetes e carros refrigerados. Pouco conhecem da realidade do cidadão comum que anda, pedala e usa ônibus e metrô. Portanto, é importante lhes revelar os percalços no caminho.

Para retomar os pedidos ao Governo do Distrito Federal (GDF), enviei no final de janeiro relatos sobre as dificuldades de pedestres e ciclistas no Eixo Monumental, na altura do Tribunal de Justiça e na região da Torre de TV e Setor Hoteleiro. As duas solicitações registradas na ouvidoria do GDF foram motivadas pelos bloqueios diários no caminho e pelas péssimas condições de acessibilidade.

Na primeira solicitação de 2018 (clique para conferir a íntegra na seção específica do blog), relatei a dificuldade na travessia nas proximidades da Torre de TV e a inacessibilidade no Setor Hoteleiro, com calçadas destruídas e rampas bloqueadas ou inexistentes. Entre as sugestões, incluí: reforma de calçada, instalação de rampas e redução do tempo de espera no semáforo.

   
   

Algumas das fotos incluídas na primeira solicitação, registrada em 30/1/2018.

Na segunda solicitação de 2018 (clique para ver a íntegra), relatei os bloqueios diários na calçada próxima ao Palácio do Buriti, Câmara Legislativa e Tribunal de Justiça. Entre as propostas, a fiscalização para coibir as infrações e a instalação de balizadores para impedir os bloqueios.

   
   

Fotos no relato da segunda solicitação, registrada em 31/1/2018.

A temporada de sugestões ao governo está só começando e ainda há mais solicitações a enviar. Afinal, com a política rodoviarista em alta (ampliação viária, túneis e viadutos), quem dispensa o carro no dia a dia fica cada vez mais espremido por pistas e estacionamentos (formais e irregulares).

Fica a dica para quem se incomoda com o nível de inacessibilidade e gostaria de ter uma cidade humanizada. Registre as pedras no caminho, busque providências e compartilhe no blog. Em texto publicado no Mobilize Brasil, apresentei um passo a passo de como registrar os problemas e buscar providências dos órgãos governamentais.

Quanto mais cidadãos se queixarem, maior a chance de obter alguma providência. A cidade precisa de mais pessoas engajadas na busca de cidades humanizadas, com maior controle social em mobilidade urbana.

SAIBA MAIS:

Dicas de como formalizar solicitações na área de mobilidade:

http://www.mobilize.org.br/noticias/9302/cidadania-e-mobilidade–como-cobrar-direitos-e-exigir-melhorias-do-poder-publico.html

Cidadania e mobilidade: Como cobrar direitos e exigir melhorias do poder público

Sufoco para cadeirante em frente à CLDF (VÍDEO):

Imobilidade no início da Asa Sul (VÍDEO):

Calçadas boas e atrativas

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Sim, há boas calçadas em Brasília. Elas são raras, mas há bons exemplos para mostrar.

Calçada em frente ao Conic: piso plano, com banquinhos e comércio em volta.

Calçada no Setor Comercial Norte: piso tátil e árvores no caminho.

Calçada plana, banquinhos e parque infantil em Águas Claras (estação Arniqueiras).

Calçada nova, com rampas e piso tátil no Setor Comercial Sul.

Já pensou se houvesse caminhos acessíveis e conectados em todo o Distrito Federal?

As calçadas em áreas públicas estão em ruínas. Mas há bons exemplos para mostrar, com destaque para o Setor Comercial Sul (via S3) e o entorno da estação Arniqueiras (Águas Claras). Esses locais eram caóticos e inacessíveis, com canteiros e calçadas invadidos por carros. Atualmente, a situação é bem melhor.

   

2015                                                                           2017

   

2015                                                                           2017

Setor Comercial Sul (via S3), antes e depois da revitalização.

 

   

2016                                                                           2018

   

2015                                                                           2018

Entorno da estação Arniqueiras (Águas Claras), antes e depois da revitalização.

As fotos revelam que, com bons projetos e vontade política, dá para revitalizar os espaços da cidade. Bastam pequenas mudanças – calçadas, banquinhos e sombra – e logo as pessoas aparecem para caminhar, brincar e se apropriar dos espaços.

Balanço da (I)mobilidade: Brasília no rumo certo?

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

A retrospectiva de 2017 revela um cenário negativo da (i)mobilidade. O ano se iniciou com uma notícia amarga: aumento na tarifa do transporte coletivo. Os protestos nas ruas não evitaram o preço de R$ 5 no metrô e no ônibus a partir de janeiro.  Reconhecida pela péssima qualidade no serviço, Brasília passava a ostentar a tarifa mais cara do país, após o segundo aumento em dois anos de governo.

Em abril, durante a campanha nacional Calçada #Cilada, Brasília se destacaria pela quantidade de crateras e armadilhas aos pedestres, fotografadas e denunciadas por meio de aplicativo de celular. As 251 crateras registradas na campanha deram o segundo lugar à capital federal, atrás apenas de São Paulo. Nas celebrações do aniversário da cidade, foi realizada a segunda edição do Salto de Crateras, uma forma lúdica de chamar atenção para o péssimo estado das calçadas na área central. É necessário porte atlético para passar a pé pelas crateras monumentais do Setor Hoteleiro e da via W3, entre várias outras armadilhas espalhadas pela cidade.

   

Cratera na W3 Norte, denunciada na campanha Calçada #Cilada, e Salto de Cratera no Setor Hoteleiro.

Em junho, o amplo estudo sobre a ciclovia da W4/W5 Norte completou dois anos. Com muitas fotos e observações (a parte principal tem 145 slides), além de diagnóstico detalhado, que revela as descontinuidades e os bloqueios no caminho, o trabalho protocolado em diversos órgãos do GDF apresentou propostas de melhorias. No entanto, não houve qualquer providência e os problemas de insegurança e desconforto persistem.

   

Descontinuidade e bloqueios na ciclovia da Asa Norte em 2017.

O segundo semestre se iniciou com uma boa notícia. O canteiro central da via S3, que passa ao longo do Setor Comercial Sul, foi transformado numa calçada plana e acessível, com ciclovia sinalizada. Mas a alegria dura pouco: calçada e ciclovia terminam de forma repentina, sem ligação entre o Setor Comercial e os Setores Bancário e de Autarquias Sul. Para celebrar o Dia Mundial do Pedestre (8 de agosto), várias pessoas participaram de caminhada pela região e vivenciaram o desconforto e a insegurança de ter que dividir a pista com carros em alta velocidade.

   

Canteiro central com calçada e ciclovia, mas sem conexão com outros setores.

No mês do Dia Mundial sem Carro (22 de setembro) foi lançado o Bilhete Único, com dois anos de atraso (durante a campanha, o candidato Rollemberg prometera para 2015). O bilhete garante economia ao usuário na integração ônibus-metrô. No entanto, permanecem graves problemas no transporte coletivo, incluindo a falta de abrigos em pontos de ônibus, a superlotação e a escassez de faixas exclusivas para ônibus.

A principal obra de imobilidade no DF continuou a pleno vapor em 2017. O milionário conjunto de túneis e viadutos do TTN (Trevo de Triagem Norte), também conhecido como Terrível Trevo Norte, vai atender a mais de 100 mil motoristas e aumentar os congestionamentos e a poluição. Apesar da tendência moderna de se incentivar os modos coletivos e ativos de transporte, o GDF continua estimulando o transporte automotivo. No final de setembro, ao se referir às obras do TTN em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, o governador declarou-se orgulhoso da política rodoviarista: Nenhum outro governo fez tantas pontes e viadutos.”

   

No final da Asa Norte, obras voltadas ao transporte automotivo deixam os pedestres na lama.

E o ano chega ao fim sem estacionamento rotativo pago. A chamada “zona azul” é comum nos centros urbanos e consiste em instrumento importante para disciplinar o uso das vagas públicas e obter recursos para projetos de mobilidade, tais como reforma de calçadas e criação de ciclofaixas. Apesar do apoio da associação de comerciantes, a proposta de estacionamento rotativo parece estar longe de se concretizar. A gratuidade das vagas públicas e a conivência com o estacionamento irregular reforçam a grande dependência automotiva em Brasília.

   

Cena comum em Brasília: canteiros e calçadas invadidos por carros.

Nada de estacionamento rotativo e tampouco VLT e metrô ampliado, duas das muitas promessas para o transporte coletivo do então candidato Rollemberg. No programa de governo e em entrevistas a mobilidade urbana se destaca, com prioridade aos modos alternativos ao automóvel.

Em quatro anos de governo, haveria expansão do metrô (Asa Norte, Ceilândia e Samambaia); linhas de VLT (Ceilândia, Taguatinga, Riacho Fundo, Asa Sul e Asa Norte); corredores de transporte coletivo Norte (ligação entre Plano Piloto e Sobradinho, Planaltina) e Oeste (entre o Eixo Monumental e Ceilândia, pela EPIG e EPTG); trens regionais (ligação de Brasília a Luziânia e Goiânia, além de estações em Águas Lindas, Ceilândia, Taguatinga, Estrutural, SIA e Rodoferroviária).

Atropelamentos e mortes no DF

Quanto à violência no trânsito, o cenário é desanimador. A imprudência e o alto limite de velocidade intimidam quem caminha e pedala na cidade. Vias como Eixão, L4 e EPIA, com limite de 80 km/h, são muros a pedestres e ciclistas. A despeito das notícias otimistas do Detran-DF, que apontam redução das mortes no trânsito em 2017, o saldo de mortos (254, no total) e mutilados é assombroso.

Em abril, Edson Antonelli foi assassinado por uma motorista alcoolizada enquanto pedalava na ciclofaixa do Lago Norte. Ainda em abril, outra tragédia: Cleusa e Ricardo Cayres (mãe e filho) foram assassinados enquanto dirigiam na L4 Sul em colisão causada por dois motoristas que, segundo testemunhas, disputavam racha.

No segundo semestre, Raul Aragão, ativista da mobilidade (voluntário do Bike Anjo e da Rodas da Paz), foi brutalmente morto enquanto pedalava na L2 Norte. O motorista que o atropelou estava a 95 km/h na via com limite de 60 km/h. Em outubro, Beatriz de Souza foi atropelada enquanto atravessava a Esplanada dos Ministérios ao sair do trabalho. Segundo testemunhas, o motociclista, que também morreu, estava em alta velocidade. É preciso nomear as vítimas no trânsito, que não são apenas números nas estatísticas sangrentas e representam centenas de famílias destroçadas.

Bicicleta branca (ghost bike) em homenagem a Raul Aragão.

Além de Cleusa, Ricardo, Beatriz, Raul e Edson, muitos outros – crianças, jovens e adultos – perderam a vida nas vias do DF. Anônimos que estamparam as manchetes dos jornais em 2017: “Dois idosos são atropelados em Taguatinga” (junho), “Duas mulheres e bebê morrem atropelados por adolescente com ‘sinais de embriaguez’ no DF” (agosto), “Ciclista morre atropelado em acidente na BR-020” (outubro). Os dados estatísticos frios, expostos em tom otimista pelos órgãos de trânsito, e as notícias sem identificação dos pedestres e ciclistas mortos naturalizam as mortes, como se fossem eventos inevitáveis.

Em cidades de referência em segurança no trânsito, como Nova York e Estocolmo, o governo segue o conceito Visão Zero (clique para acessar o plano de Nova York), em que as mortes não são tratadas como meros acidentes e ações efetivas são tomadas – tais como redesenho das vias e redução da velocidade – para reduzir os riscos de atropelamentos e mortes.

Ao contrário da propaganda governamental, Brasília continua no rumo rodoviarista atrasado, caro e poluente. As promessas de campanha e as mudanças de nome dos programas do GDF não se traduzem em melhorias significativas na mobilidade. Os gestores públicos precisam se convencer da necessidade de humanizar a cidade, com incentivos aos modos alternativos ao carro.

 

Vídeos sobre a (i)mobilidade no DF:

Protesto contra o aumento na tarifa do transporte coletivo

Imobilidade no início da Asa Sul

Imobilidade no final da Asa Norte

Promessas de Rollemberg – transporte coletivo

 

Bicicletários inadequados em shoppings

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

Notei que dois centros comerciais de Brasília alteraram para pior o bicicletário. Pátio Brasil e Brasília Shopping contam agora com suportes do tipo “escorredor de prato”, também conhecido como “entorta aro”.

Dezembro/2016

Janeiro/2018

Bicicletário do Brasília Shopping

Novembro/2016

Outubro/2017

Bicicletário do Pátio Brasil

Os centros comerciais de Brasília possuem espaços voltados aos ciclistas, gratuitos e muitas vezes cobertos. No entanto, o tipo de suporte nem sempre é adequado. Além da possibilidade de danificar os aros da bicicleta, o modelo inadequado pode até mesmo impedir que se prenda a bicicleta, a depender do modelo. Uma bicicleta tandem (dupla), ou com pneus mais largos, não cabe. No caso da minha bicicleta com bagageiro e baú de moto adaptado, a dificuldade de prender é grande.

No Boulevard Shopping, no final da Asa Norte, o local para bicicletas é sinalizado e coberto. No entanto, os suportes também são inadequados. Quando vamos até lá, a saída é apoiar na grade lateral para ter certeza de que elas não tombarão.

   

Bicicletário do Boulevard Shopping

Não passei recentemente pelo Conjunto Nacional e espero que não tenham aderido à moda de piorar o bicicletário, afinal o Conjunto é uma referência não apenas pelos suportes adequados para prender as bicicletas (modelo U invertido), mas também pelo controle de acesso e pela atenção recebida dos funcionários. Para completar, já foi realizada campanha interna para incentivar os clientes a usarem bicicleta.

   

Conjunto Nacional: bicicletário e campanha de incentivo

Há bons manuais disponíveis, com dicas e orientações técnicas para instalar bons bicicletários, incluindo o Guia de Boas Práticas para Instalação de Estacionamento Adequado de Bicicletas, elaborado pela União de Ciclistas do Brasil (UCB).

Ainda pretendo produzir relato detalhado, com mais fotos e vídeos. Por enquanto, espero que o setor privado se sensibilize da importância de bicicletários adequados, que atraiam os clientes ciclistas.