Supere o medo de pedalar

Por Uirá Lourenço

Arte: Steve Chezz

Já pensou na proposta de curso gratuito para estimular as pessoas a usarem bicicleta no dia a dia para ir à escola e ao trabalho? Em tempos de gasolina e congestionamentos em alta, parece razoável dar orientações aos motoristas que têm receio de pedalar.

Atualmente, o Distrito Federal tem mais de 400 km de ciclovias e ciclofaixas. No entanto, na área central de Brasília as ciclovias ainda têm pouco movimento de ciclistas. É nítido o contraste entre as pistas cheias de carros e as ciclovias vazias.

Ciclovia do Eixo Monumental: baixo movimento mesmo em horários de pico.

Há alguns problemas no caminho, como falta de conexão entre ciclovias e falha na sinalização, mas dá para seguir pedalando sem grandes dificuldades na área central. Muitas vezes, basta apenas orientação quanto ao melhor trajeto.

São muitas as vantagens no uso da bicicleta, tanto individualmente (saúde física e mental, praticidade e economia), quanto do ponto de vista coletivo (mais bicicletas representam menos carros e menor nível de sedentarismo e menor demanda por pistas e estacionamentos).

Considerando a infraestrutura cicloviária extensa e ociosa e ainda os congestionamentos constantes causados pela frota motorizada crescente (cerca de 1,8 milhão de automóveis registrados no DF), o Detran e os órgãos relacionados à mobilidade poderiam incentivar, com ações práticas, o uso de alternativas ao carro, incluindo a bicicleta. E por que não promover curso gratuito aos que têm medo de pedalar?

Cena comum em todo o DF: congestionamentos causados pelo excesso de carros em circulação.

Em agosto de 2017, registrei no Detran-DF a sugestão de curso para superar o medo de pedalar, que está em sintonia com a tendência moderna de incentivar os modos ativos de transporte. Na resposta, o órgão informou que realiza campanhas educativas sobre a segurança dos ciclistas e que a proposta de curso para superar o medo de pedalar seria levada em consideração.

– Superação do medo de dirigir

Apesar dos argumentos em favor de ações que incentivem o uso de bicicleta, ainda se veem ações no sentido contrário, que promovem a dependência automotiva. Há uma semana, no dia 5 de junho (Dia Mundial do Meio Ambiente), o GDF anunciou nova turma do curso gratuito para incentivar os medrosos a assumirem o volante.

No ano passado, o anúncio do curso também ocorreu na data em que se celebra o meio ambiente. Vale lembrar que a tendência em cidades modernas é restringir cada vez mais o uso do carro e estimular os meios de transporte coletivos e ativos, com destaque para a bicicleta. A restrição aos carros se dá não apenas para reduzir a poluição do ar e do barulho dos motores, mas também como forma de melhorar a saúde e a qualidade de vida.

O curso Superação do medo de dirigir é oferecido gratuitamente pelo Detran-DF desde 2007, com até 9 turmas abertas por ano. Os dados foram obtidos por meio de solicitação de informações registrada em junho de 2017. Essas informações e outras solicitadas pelo Brasília para Pessoas estão disponíveis em seção específica do blog (clique para acessar).

Além de lançar mais uma turma do curso para encorajar os medrosos a assumirem o volante, o GDF vem espalhando anúncios nos pontos de ônibus e em jornais sobre as obras do TTN (Trevo de Triagem Norte, também conhecido como “Terrível Trevo Norte”), voltadas ao transporte automotivo. O curso de superação ao medo de dirigir e os anúncios com a motorista em destaque – feliz com os vários túneis e viadutos em construção – completam o pacote de benesses automotivas, que comentamos em texto publicado recentemente no blog (clique para conferir).

Anúncios sobre as obras de (i)mobilidade em pontos de ônibus e jornais.

Numa cidade com tantos carros em circulação e estacionados por todo canto – incluindo calçadas, canteiros e ciclovias –, é oportuno incentivar ainda mais pessoas a usarem carro por meio de cursos gratuitos? Será que um dia teremos mudanças no modo de ver a cidade e planejar as ações e os cursos oferecidos?

Muitas pessoas e grupos vêm atuando para incentivar o uso de bicicleta como meio de transporte. Certamente, os órgãos públicos responsáveis pela mobilidade teriam apoio em ações inovadoras, como o curso para superar o medo de pedalar. Entre os grupos destaca-se o Bike Anjo DF, que ensina pessoas de todas as idades a pedalar e dá dicas de trânsito para quem pretende usar a bicicleta no dia a dia.

Na sugestão de curso apresentada no ano passado, coloquei-me à disposição para ajudar na elaboração de curso voltado aos que têm medo de pedalar. Mas as mudanças na mobilidade dependem de mudança de mentalidade, de um olhar diferenciado e sensível dos gestores públicos, que devem estar convencidos das vantagens de promover alternativas ao carro. Enquanto a mobilidade sustentável (saudável e moderna) for apenas um artigo perdido em lei ou uma promessa vazia em programa de governo, continuaremos com o cenário de caos e estresse, com congestionamentos frequentes, insegurança e alto nível de sedentarismo e obesidade.

VÍDEOS:

Mobilidade Saudável em Brasília

De bicicleta para a escola

De patins para o trabalho em Brasília

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Surpresas e desafios ao caminhar e pedalar por Brasília

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Andar por Brasília sempre traz muitas surpresas. A beleza da paisagem encanta e, no ritmo tranquilo da caminhada, destacam-se as aves e árvores. Não tenho carro por opção e, desde que me mudei para Brasília em 2005, caminho e pedalo bastante. Uma atividade antiestresse é observar e clicar a natureza e a (i)mobilidade.

No trajeto diário passo por algumas famílias de corujas, que sempre me observam. Alguns quero-queros também se abrigam próximo à ciclovia e já se acostumaram comigo; atualmente só atacam os famintos carcarás. A árvore soneca, que se estica no canteiro, é parada obrigatória quando saio com a família.

A sensação de liberdade é grande ao dispensar o carro no dia a dia. Fica-se imune ao aumento no preço da gasolina (o combustível básico é arroz e feijão) e se mantém facilmente a forma física (já faço academia no trajeto casa-trabalho). Quanto ao estacionamento – muitos amigos se queixam da dificuldade de estacionar ao sair de carro – lixeiras e postes resolvem o problema quando falta bicicletário.

Praticidade na hora de estacionar, com ou sem bicicletário.

Mas nem tudo são flores e há que se falar no outro lado da história: os obstáculos que surgem no caminho. A fama de respeito à faixa de pedestre e a quantidade expressiva de ciclovias (420 km de infraestrutura aos ciclistas, segundo o GDF) não condizem com as reais condições para caminhar e pedalar em Brasília. Basta um curto trajeto a pé ou de bicicleta para a fama se desfazer.

Mesmo na Esplanada dos Ministérios são muitas as crateras e as dificuldades para caminhar. É um desafio passar de bicicleta pela rodoviária do Plano Piloto: faltam caminhos seguros e falta bicicletário. No principal terminal de transporte de Brasília, o ciclista não tem espaço apropriado para estacionar a bicicleta e fazer a integração com o ônibus ou metrô. Em vídeos recentes, mostrei as péssimas condições a pedestres e ciclistas que passam no início da Esplanada dos Ministérios.

Crateras avantajadas e ausência de caminho seguro na rodoviária do Plano.

Há vários outros pontos críticos, inacessíveis, como a W3 o Setor de Rádio e TV Sul. Ao longo de toda a W3 (Norte e Sul) as calçadas estão em total abandono, invadidas por carros e sem rampas de acessibilidade. Para piorar, há locais com alto risco na travessia. No Setor de Rádio e TV Sul o abandono também é vergonhoso e dura muitos anos. Em 2014, três crianças fizeram uma ação de multa cidadã na região e aplicaram multas simbólicas nos carros sobre a calçadas (vídeo da multa cidadã). De 2014 até hoje o cenário de crateras e desrespeito continua.

Além da falta ou má conservação de calçadas, rampas e faixas de travessia, um problema grave é o estacionamento irregular. Por toda a capital federal é comum ver carros sobre calçadas, canteiros e ciclovias. Nem as poucas rampas são poupadas.

Crateras e carros na calçada: realidade na W3 Sul e Norte.

Rotina de bloqueios no caminho de quem caminha por Brasília.

As poucas ações favoráveis a quem caminha e pedala são insuficientes para mudar a realidade. Para exemplificar, no Eixo Monumental, próximo à Câmara Legislativa e ao Palácio do Buriti, a calçada é nova e acessível, mas os bloqueios diários impedem a passagem. No Setor Comercial Sul, a nova calçada com ciclovia na via S3 carece de conexão com o Setor Bancário e os pontos de ônibus na frente de hospitais e rampas da região estão diariamente bloqueados. A recente e necessária pintura nos cruzamentos da ciclovia não impede que motoristas continuem bloqueando o caminho dos ciclistas.

O nível de inacessibilidade é crítico mesmo em locais que passaram por melhorias.

As infrações observadas diariamente reforçam a necessidade de ações integradas de infraestrutura, educação e fiscalização. Outro fator que inibe a circulação de pedestres e ciclistas é o alto limite de velocidade. Vias expressas cortam a cidade e criam barreiras. Limites de 70 e 80 km/h nas cidades afugentam seres desprovidos de motor e aumentam a insegurança, tornando-se verdadeiros muros, intransponíveis a cadeirantes e cegos. Não bastasse o alto limite, a imprudência é facilmente observada e, longe dos radares, a velocidade passa dos 100 km/h.

Eixão e EPIA: vias com alto limite de velocidade.

Muitas das vias são tratadas como rodovias expressas, com foco no transporte motorizado e sem espaço para pedestres e ciclistas. Na EPIG, onde o GDF anunciou viaduto para escoar o fluxo de carros do Sudoeste pelo Parque da Cidade, não há calçadas nem pontos seguros de travessia. Na faixa de pedestre em frente à Polícia Civil a espera no semáforo chega a 11 minutos! O vídeo revela que atravessar a EPIG é missão quase impossível.

O final da Asa Norte também merece comentários, afinal as obras do TTN estão em ritmo avançado. O multimilionário projeto TTN – que prefiro chamar de Terrível Trevo Norte – avança sobre os canteiros e o lago Paranoá com o objetivo de construir dezenas de túneis e viadutos. Segundo o governo, trata-se da “maior obra viária desde Juscelino Kubitschek”. Para quem passa a pé e depende de ônibus, não há o que celebrar e continua o estado de abandono.

Muitas das árvores no final da Asa Norte já foram marcadas e eliminadas. A rica e bela fauna também sucumbirá ao suposto progresso da política rodoviarista equivocada e cara de incentivo ao transporte automotivo, em detrimento dos modos coletivos e ativos (saudáveis) de transporte.

Árvores e aves com os dias contados no final da Asa Norte. Devastação causada pelo TTN.

Ao caminhar e observar a cidade há mais de 10 anos, percebo que a capital federal precisa se renovar. A dependência automotiva é uma marca registrada – simbolizada na ideia de que o brasiliense é composto de cabeça, tronco e rodas (4 rodas) –, mas o aumento dos congestionamentos e do estresse em razão da frota crescente indica a necessidade de mudanças. Estudos apontam que Brasília deve colapsar em poucos anos diante do excesso de carros nas pistas.

Além de infraestrutura adequada, precisamos de mudança cultural. Caminhar e pedalar deveriam ser vistos como alternativas de transporte, em vez de estarem associados ao pobre que ainda não conseguiu adquirir carro próprio. Cada vez mais as cidades modernas incentivam a mobilidade saudável e restringem o transporte automotivo, com grandes ganhos em qualidade de vida, a exemplo de Amsterdã e Copenhague.

A situação por aqui deve melhorar quando as autoridades começarem a caminhar e a usar o transporte coletivo nos trajetos diários. Ao sentirem na pele as dificuldades, certamente tomarão as providências necessárias. Em vez de carro oficial, os secretários de estado, diretores de órgãos de trânsito e parlamentares deveriam receber um bilhete único com acesso livre ao transporte coletivo e às bicicletas compartilhadas.

 

VÍDEOS:

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

De bicicleta na rodoviária do Plano Piloto

Multas cidadãs em Brasília

Missão Impossível: Travessia na EPIG

 

Este texto foi redigido a convite das jornalistas que mantêm o blog Olhar Brasília, onde foi originalmente publicado: http://www.olharbrasilia.com/2018/05/18/surpresas-e-desafios-ao-caminhar-e-pedalar-por-brasilia/

Fotos do Pedal em protesto ao preço da gasolina

Tranquilidade no trajeto, bate-papo agradável e muita disposição no boicote saudável ao aumento no preço da gasolina, realizado no dia 24 de maio. E boa receptividade dos motoristas na fila para abastecer, que tiravam fotos do grupo. Um motorista do uber fez o clique do grupo todo.

Nos momentos de crise surgem boas oportunidades. E a bicicleta pode ser uma grande aliada neste momento. Os participantes levaram cartazes para ressaltar a viabilidade da bicicleta como meio de transporte.

As filas nos postos de gasolina estavam gigantescas. Com o agravamento da crise e a escassez de combustível, a tendência é que mais pessoas busquem alternativas de transporte: não só a bicicleta, mas também o transporte coletivo e a simples caminhada nos trajetos mais curtos.

Filas quilométricas nos postos do Eixinho Norte para abastecer no dia 24/5.

Pedalada contra o preço dos combustíveis

Chateado com os constantes aumentos nos postos?

O preço da gasolina está arruinando suas finanças?

 Então, participe do Protesto criativo e saudável contra o alto preço dos combustíveis.

Em vez de comprar gasolina com desconto no dia 24/5 (notícia sobre a venda de gasolina mais barata, sem impostos), deixe de abastecer e encontre alternativa ao carro.

Amanhã (e nos outros dias também) fuja dos postos de combustível e venha participar do Bonde da Saúde e da Economia. Em vez de madrugar na fila para abastecer, venha pedalar conosco!

Um grupo que usa bicicleta no dia a dia vai sair da Asa Norte e te ajudará no trajeto, com dicas de trânsito e um bate papo animado.

O lema do grupo é Queime Caloria, Não Queime Gasolina! Patins, skate e patinete são bem-vindos.

Aproveite o dia para testar outros meios de transporte, fazer novos caminhos e interagir com as pessoas.

Para quem mora longe do local de trabalho ou não quer pedalar, dá para usar ônibus, metrô ou carona. Tire foto e compartilhe nas redes sociais. Assim, daremos o recado de que precisamos de cidades mais saudáveis, com menos carros e menos poluição.

 

– Detalhes do pedal:

Protesto criativo e saudável contra o alto preço dos combustíveis

Data: 24/5 (5ª-feira). Concentração às 7h15 e saída às 7h30.

Ponto de Encontro: W3 Norte (509N), no ponto de ônibus do Pão de Açúcar.

Trajeto: Asa Norte – Esplanada dos Ministérios/Eixo Monumental

Contato: (61) 9 8126-5153

Mapa do local de encontro (clique sobre a imagem para ampliar):

 

 

Pacote de benesses automotivas

Uirá Lourenço, com colaboração especial de Rosana Baioco

No balanço da semana, saldo bem positivo para o transporte automotivo: duplicação de via, conclusão de nove dos 13 viadutos do TTN (“Terrível Trevo Norte”), parcelamento das multas de trânsito no cartão de crédito e previsão de mais viadutos. Para completar o pacote de incentivos aos motoristas, a liberação de faixa de ônibus para os carros.

Notícias de maio: obras e facilidades ao transporte automotivo (clique nas imagens para ver as notícias).

Em notícia sobre a liberação da faixa exclusiva de ônibus para os carros, o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) reconhece a importância das faixas para ônibus, mas afirma a suposta necessidade de retirar a prioridade. Segundo o dirigente: “A faixa exclusiva é muito positiva, prioriza o transporte público. Naquela região a quantidade de ônibus é muito baixa. Tentando melhorar o fluxo para o transporte coletivo, faz muita retenção. Os estudos da equipe técnica da superintendência de trânsito indicam que naquela parte é melhor não ter a exclusividade da faixa para os ônibus. Vai melhorar o trânsito.”

Ainda na entrevista, o diretor do DER/DF declarou que viaduto é “solução muito razoável que permite o fluxo contínuo” e anunciou mais viadutos: “A gente está desenvolvendo alguns projetos para vários locais onde tem muita retenção para desenvolvimento e construção de novos viadutos.”

O estado de abandono é bem evidente na capital “moderna”. Em muitos locais não se consegue sequer caminhar por falta de calçadas e rampas. Ou porque as calçadas viraram estacionamento. E os usuários de ônibus continuam se espremendo nos pontos de ônibus na árdua jornada de volta para casa.

Realidade em Brasília: calçadas tomadas por carros e pontos de ônibus superlotados.

Mas a maior preocupação é com a alta no preço da gasolina. Nas manchetes dos jornais, destaque para o tema.

Notícias de 11 a 15/5. Fonte: Correio Braziliense, Metrópoles e G1-DF. Clique nas imagens para ler as notícias.

Diante do pacote de incentivos aos motoristas, a seguidora do blog e entusiasta da mobilidade Rosana Baioco escreveu texto com as impressões ao percorrer a cidade. A seguir, o texto da Rosana.

– Sou pedestre, ciclista e motorista. Sou Cidadã!

Caminhando, pedalando e dirigindo pela cidade vejo o quanto é facilitado o deslocamento do motorista, em detrimento do pedestre e do ciclista.

Vaga improvisada na grade de edifício comercial com grande circulação de pessoas, no início da Asa Norte. O prédio conta com garagem coberta para carros.

As vias são largas e mantidas o máximo possível livres de obstáculos, os abomináveis semáforos, faixas de travessia de pedestres e ciclovias e corredores exclusivos de ônibus, para que todos os motorizados possam circular, parar e estacionar seus automóveis particulares, frequentemente  por oito ou dez horas seguidas, bem perto de seus locais de destino.

Quando saem de suas cápsulas de sobrevivência têm que enfrentar calçadas esburacadas, quebradas, sujas e descontínuas, travessias penosas, demoradas e arriscadas, passarelas que praticamente duplicam a distância a ser vencida.  “Coitados dos pedestres”, dizem, sem perceber que somos todos. “Mas também, quem manda não ter carro”? E o conhecido “lugar de ciclista é na ciclovia, hoje não é feriado”.

Grelha de escoamento de água da chuva exatamente em frente à rampa de acesso à ciclovia e com as aberturas no sentido dos pneus da bicicleta, representando alto risco de prender o pneu e ocasionar queda perigosa. (Ciclovia da via N-1).

Todos os caminhos levam ao…estacionamento. Calçada na lateral do Ed. Crispim, em frente ao HRAN. Sem rampas de acesso e com carros bloqueando a passagem. No edifício funciona, por exemplo, clínica de fisioterapia para idosos.

 

No meio do “caminho” (cruzamento ciclorrodoviário) havia uma “pedra” (carro parado esperando o sinal verde). Travessia de cruzamentos na altura do TJDFT, ciclovia da N-1.

Mas isso não parece ser suficiente, todo este espaço à disposição para o ir, vir e permanecer do cidadão dentro de seu automóvel.  Não basta a leniência do poder público e da sociedade civil ao não penalizar a maioria das infrações como estacionamento sobre calçadas, alta velocidade, irregularidades mecânicas e de habilitação, além da privatização do espaço público para que se guarde um bem individual ocupando quase 6m² de área nobre da cidade todos os dias (maior que muitos dormitórios na maioria das residências).

Calçada novinha, ao lado do bloco E da SQS 108, com uma grade quebrada bem no meio.

Os viadutos e os “trevos de triagem” – que na verdade são cemitérios de nascentes e de árvores e nativas, desalojando a fauna e aumentando a sensação térmica a níveis desérticos – se multiplicam.  Mas não bastam para incentivar o cidadão a se tornar um “motorista”.  Agora as multas de trânsito podem ser parceladas em até 10 vezes no cartão de crédito! E têm desconto de 40% se forem pagas através de aplicativo no celular! E o preço dos combustíveis é acompanhado mais de perto que o preço do feijão com arroz.

Caro pedestre, ao final da calçada, bata as asas para passar por sobre os veículos.

Em suma: compre o carro em 60 parcelas, saia com ele todo dia, que damos desconto de 40% nas multas (com pagamento facilitado e parcelado no cartão de crédito), construímos pistas e mais pistas novinhas e liberamos as faixas exclusivas de ônibus, fazemos vista grossa às infrações e abaixamos o preço dos combustíveis. Só falta dar um carro de presente para cada um.

 

VÍDEOS:

Caminhada e conversa sobre Brasília com participantes do EREA

TTN (Terrível Trevo Norte): devastação em obra rodoviarista

Inacessibilidade na capital federal – cadeirante em calçada destruída e sem rampas

Direito à Cidade e à Acessibilidade X Direito à Imagem (do Carro)

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Ontem, enquanto pedalava e passava pelos inúmeros bloqueios no caminho, ocorreu algo curioso.

Ao passar pela W3 (504 Norte), próximo a um cartório e a uma agência bancária, tirei foto da rampa bloqueada. Como ocorre diariamente, as calçadas e rampas do local viram estacionamento.

A motorista estava no carro e ficou incomodada por eu ter tirado foto da infração. Continuei meu trajeto e ela me seguiu. Parei no supermercado, fiz compras e acomodei as sacolas na bicicleta. De repente, surge a motorista para tirar satisfação.

Transcrevo abaixo o diálogo entre nós dois.

[Ela] – Por que você tirou foto minha?

[Eu] – Não tirei foto sua. Tirei foto do seu carro, que estava bloqueando a rampa. Foi você que tirou foto minha (ela tirou foto após eu registrar o carro estacionado).

[Ela] – Mas o carro é minha propriedade, você não pode tirar foto. Exijo que você apague.

Já liguei para a polícia e eles estão vindo. Passei sua foto para eles. A coisa tá preta para você.

[Eu] – Tudo bem. Estou aqui e aguardo os policiais. Você disse a eles que estava estacionada bloqueando a rampa?

{Silêncio}

[Ela] – Apaga as minhas fotos.

[Eu] – Apago as fotos se você prometer que não vai mais parar bloqueando o caminho dos pedestres.

[Ela] – Você sabe o que eu estava fazendo lá? Estava esperando minha avó, que foi ao banco.

[Eu] – Isso lhe dá o direito de estacionar bloqueando o caminho dos pedestres?

{Silêncio}

[Ela] – Você é policial ou agente do Detran?

[Eu] – Não, sou cidadão e fico incomodado com os bloqueios. Você deveria pensar nos cadeirantes e nos idosos, nas pessoas com a idade da sua avó que precisam passar pela rampa.

[Ela] – Para você saber, já tem outro carro lá estacionado na rampa. Vai lá tirar foto.

Enquanto ela ia embora, percebi que estava estacionada em local proibido.

[Eu] – Você parou em local proibido de novo!

[Ela] – Aproveita e tira uma foto (fez pose para eu tirar foto).

[Eu] – Não, já tenho registro suficiente.

Não apaguei a foto, mas coloquei tarja na placa na esperança de que ela vai parar de bloquear o caminho.

As “vagas” nas duas rampas e nas calçadas próximas são as mais disputadas. Confirmando o que disse a motorista, basta sair um carro e não demora muito para outro já ocupar a “vaga”.

   
   
   
   

“Vagas” concorridas na W3 (504 Norte). Em respeito ao direito de imagem (do carro), nenhuma placa está visível.

A pedido do Detran e da Secretaria de Mobilidade, realizei levantamento fotográfico de áreas críticas de estacionamento irregular. As rampas na 504 Norte entraram no levantamento. Infelizmente, não houve qualquer providência para coibir as infrações diárias nos locais.

É necessário porte atlético para caminhar e pedalar na capital federal. Além das crateras e da falta de continuidade de calçadas e ciclovias, os obstáculos (carros) no caminho exigem bom vigor físico.

 

VÍDEOS:

Pedestres atletas na Asa Norte (W3)

Pedestres em apuros na capital federal (1 minuto)

Pedestres bloqueados e em grande risco na W3 Sul

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Ao caminhar pela W3 na semana passada, uma surpresa: bloqueios dificultavam a travessia dos pedestres. Como denominar essa intervenção do Detran?

Em enquete realizada no facebook do Brasília para Pessoas surgiram algumas sugestões: “Brasília no rumo certo”, “A volta dos que não foram”, “Cegueira” e “Curral para pedestres”.

A região tem movimento intenso de pedestres. No local dos bloqueios as pessoas atravessam na faixa no lado onde fica o Pátio Brasil, mas não têm continuidade na travessia para o Setor Comercial Sul.

Nesta semana, felizmente já não havia mais os bloqueios. Fica a dúvida: teria sido apenas mais um experimento do Detran?

No dia 2/5/2018 a calçada estava liberada, sem os bloqueios do Detran.

Por falar em experimento, no final de 2016 foram pintadas faixas de travessia na região, que duraram pouco tempo e acabaram sendo apagadas. Na época, fiz relato com fotos sobre o mistério das faixas apagadas.

Ainda se podem ver no asfalto as faixas que foram apagadas.  Além da insegurança decorrente da falta de faixas de travessia, o tempo de espera no semáforo é muito longo para os pedestres.

   

Dois pontos com faixas pintadas e posteriormente apagadas no início da W3 Sul.

Na região há vários centros comerciais, lojas e escritórios. E ainda há dois grandes hospitais – de Base e Sarah. É comum ver pessoas em cadeiras de rodas e com muletas. As condições de acessibilidade melhoraram após a instalação de piso tátil e balizadores para impedir a invasão das calçadas, mas ainda são necessárias muitas melhorias, como rampas e pontos de travessia.

   

Longa espera na travessia: fluxo automotivo priorizado em detrimento da segurança e do conforto dos pedestres

Os riscos na travessia são altos. Mesmo com a faixa apagada alguns motoristas reduzem a velocidade ou param ao perceber a presença de pedestres, mas outros passam em alta velocidade e buzinam de forma agressiva, como revelam os vídeos com flagrantes de março e maio deste ano.

 

– Bloqueios nos pontos de ônibus

Próximo das travessias sem faixa na W3, onde foram instalados os bloqueios contra pedestres, todo dia motoristas estacionam irregularmente e bloqueiam os pontos de ônibus. As infrações ocorrem na frente de dois hospitais – hospital de Base e Sarah.

As “vagas” na frente dos hospitais são as mais disputadas para azar dos que precisam pegar ônibus. Quem está no ponto não enxerga os ônibus que passam. Um cadeirante não consegue embarcar em razão dos carros e da falta de rampas.

   
   
   

“Vagas” disputadas na frente dos pontos de ônibus.

Em abril deste ano, registrei queixa na ouvidoria do GDF contra os bloqueios diários que ocorrem nos pontos de ônibus da região (acessível na seção do blog com solicitações e pedidos de providências). Incluí fotos e mapa com indicação dos locais das infrações. Também propus medidas para coibir o estacionamento irregular: sinalização e instalação de balizadores. Infelizmente, não houve qualquer providência e o desrespeito continua.

 

– Inacessibilidade na Asa Sul

 O problema não se resume à falta de segurança nas travessias e aos pontos de ônibus bloqueados. No início da W3 Sul muitas calçadas e canteiros estão invadidos pelos carros. Não bastasse o péssimo estado das calçadas, os pedestres ainda têm que desviar dos carros no caminho.

Apesar de ser uma importante avenida, na W3 Sul as calçadas se converteram em estacionamento. Em várias quadras o bloqueio é total: com calçadas destruídas e repletas de lixo e carros, o pedestre precisa andar na pista, com cuidado para não ser atropelado pelos ônibus.

   

Calçadas em péssimo estado e invadidas por carros na W3 Sul.

 

Outra região crítica é o Setor de Rádio e TV Sul. Em 2014, foi feita ação de multa cidadã no local. Três crianças, munidas de talões, aplicaram multas simbólicas nos carros estacionados sobre a calçada (vídeo mostra as crianças aplicando multa cidadã). De 2014 até hoje o cenário de desrespeito continua igual. Na verdade ficou pior, pois as calçadas estão ainda mais destruídas pela constante circulação de carros.

2014

2018

Calçadas destruídas e invadidas no Setor de Rádio e TV Sul: realidade que se mantém ao longo dos anos.

 

– Ações para garantir acessibilidade

Pelo que se observa ao caminhar na capital federal, precisa-se de menos experimentos e bloqueios contra pedestres e de mais ações para garantir condições dignas de acessibilidade. Por ser capital federal, Brasília tem responsabilidade ainda maior em zelar pelos espaços públicos e garantir acessibilidade.

Aos órgãos de trânsito bastaria seguir o Estatuto da Pessoa com Deficiência, estabelecido pela Lei Federal n° 13.146/2015. Segundo o art. 46 da lei, “O direito ao transporte e à mobilidade da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida será assegurado em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, por meio de identificação e de eliminação de todos os obstáculos e barreiras ao seu acesso.”

Ou seja, pôr em prática ações de infraestrutura, educação e fiscalização de trânsito para eliminar barreiras e garantir caminho livre aos pedestres. Construção e reforma de calçadas e rampas, instalação de pontos seguros de travessia e tolerância zero contra o estacionamento irregular deveriam ser ações prioritárias.

 

VÍDEOS:

Bloqueios contra pedestres na W3 Sul

Descaso com os usuários de ônibus no Setor Comercial Sul

Flagrante de quase atropelamento na W3 Sul

Multas cidadãs em Brasília – crianças aplicam multa simbólica

Cadeirante em calçada destruída e sem rampas do Setor de Rádio e TV Sul

 

Ratos e atletas no final da W3 Norte

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Na capital federal, milhares de homens e mulheres andam como ratos (e com os ratos) e correm como atletas nos trajetos diários.

No final da W3 Norte, entre o setor hospitalar e o boulevard shopping, as pessoas enfrentam uma saga diária nos canteiros e nas calçadas destruídas.

Não bastasse a ausência de calçadas, evidenciada pelos inúmeros “caminhos de rato” nos canteiros (caminhos demarcados pela passagem de pedestres), ainda se tem que dividir espaço com lixo e roedores.

   

Calçadas destruídas e correria para atravessar e chegar vivo ao outro lado.

   

Neste ponto a calçada está repleta de lixo e de ratos.

Para completar, um dos poucos semáforos em que daria para atravessar com certa segurança leva muito tempo para liberar passagem ou fica desativado, possivelmente para dar maior fluidez motorizada. O vídeo revela o sufoco para atravessar no final da W3 Norte. É necessário vigor físico de atleta!

E o que dizer dos pontos de ônibus? Lotados, escuros, sem acessibilidade e sem informações sobre linhas e horários.

Escuridão e superlotação nos pontos de ônibus do final da W3 Norte.

   
   

Superlotação, abandono e inacessibilidade nos pontos de ônibus da região.

 

– Obras do TTN (“Terrível Trevo Norte”)

A poucos metros de onde as calçadas estão destruídas e largadas aos ratos, avançam as obras do TTN. Muitos tratores devastam canteiros e aterram as margens do lago Paranoá para construir dezenas de túneis e viadutos.

Imagem aérea mostra a devastação causada para construir mais pistas e viadutos. Fonte: Agência Brasília.

A contradição é óbvia: enquanto pedestres e usuários de ônibus estão em situação de completo abandono e insegurança, a obra milionária vai incentivar ainda mais o transporte automotivo e certamente vai aumentar o nível de insegurança e desconforto dos pedestres, afinal haverá mais pistas e viadutos para atravessar na saga diária.

Os canteiros no final da W3 Norte estão com marcações e árvores pintadas (possivelmente, marcadas para morrer), o que indica que as obras do TTN avançarão nos caminhos traçados pelos pedestres.

   

Árvores pintadas e canteiros demarcados: avanço das obras do TTN.

Dá para ter noção do nível de insanidade e atraso do modelo de transporte rodoviarista (centrado no rei automóvel) ainda vigente no DF ao constatar a desproporção entre ônibus e carros na ponte do Bragueto. Todo dia, milhares de carros enchem as pistas e vêm para a capital federal, os ônibus passam abarrotados de gente e sem qualquer prioridade na via.

Na ponte do Bragueto, desproporção entre carros e ônibus.

Ao conversar com pessoas que usam ônibus e passam pela região, constatei que alguns acham que as escavações em andamento têm por objetivo expandir o metrô até a região norte do DF. Em razão da dimensão das obras e da falta de informações no local, é compreensível o equívoco, a ilusão de achar que se trata de melhorias no transporte coletivo.

Será que um dia iremos reverter o modelo rodoviarista atrasado e seguir no rumo certo, da mobilidade moderna e saudável, em que se priorizam os modos de transporte coletivos e ativos e detrimento do modelo centrado no carro?

VÍDEOS:

Pedestres Atletas no final da Asa Norte

Caminhos de Rato, Ratos no Caminho

Travessia difícil no Setor Hospitalar

Cenas do final da Asa Norte – Ponte do Bragueto

 

De bicicleta na Rodoviária do Plano

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Todo dia milhares de pessoas passam pela rodoviária do Plano Piloto, que concentra diversas linhas de ônibus e onde fica a estação central do metrô. Atualmente, em vez de ser um ponto seguro de conexão entre as ciclovias da área central, a rodoviária se transformou numa barreira ao ciclista.

As ciclofaixas estão totalmente apagadas e invadidas por carros e ônibus, tanto na parte norte, quanto na parte sul. Em 2014 ainda se via a ciclofaixa, que se apagou e não teve manutenção ao longo dos anos. As fotos abaixo, tiradas nos mesmos pontos, comparam a situação em 2014 e neste ano.

   

Rodoviária do Plano em 2018: ciclofaixas inexistentes e carros no caminho.

   

Em 2014, as ciclofaixas estavam em bom estado.

Além dos bloqueios, os buracos e as irregularidades do piso comprometem a segurança do ciclista, especialmente à noite.

   

Fendas em gradil representam armadilhas aos ciclistas.

O estado de abandono é visível ao longo das ciclovias no entorno da rodoviária. Os cruzamentos também dificultam bastante o caminho: falta sinalização de alerta aos motoristas e sempre há carros e ônibus no caminho. Em vídeo deste ano mostro as péssimas condições para circular e estacionar na rodoviária do Plano Piloto.

   

No entorno da rodoviária do Plano, ciclovia destruída e bloqueada.

– Cadê o bicicletário?! 

   

Por ser o principal terminal de transporte coletivo, a rodoviária do Plano deveria ser atrativa ao uso da bicicleta integrada ao ônibus e ao metrô. No entanto, o bicicletário que já era inadequado (com suportes frágeis, sem cobertura e sem controle de acesso) ficou ainda pior. Atualmente, o espaço está interditado e com suportes destruídos.

Em consequência das péssimas condições, os ciclistas improvisam na hora de estacionar e recorrem a lixeiras e outros pontos que permitem prender a bicicleta. Há que se considerar ainda as pessoas que simplesmente deixam de usar bicicleta em razão da falta de bicicletário.

   

Improviso na hora de estacionar.

A situação de abandono compromete não só a possibilidade de integração com o transporte coletivo, mas também afeta os usuários e funcionários das lojas e dos serviços oferecidos na rodoviária, a exemplo do Na Hora e do posto do DFTrans, que não dispõem de local seguro de parada caso usem bicicleta.

Vale lembrar que há duas leis específicas sobre bicicletários no DF: a Lei Distrital n° 4.423/2009 e a Lei Distrital n° 4.800/2012. A lei de 2009 estabelece “a obrigatoriedade da instalação de estacionamento de bicicletas em locais de grande afluxo de público no Distrito Federal” e a lei de 2012 obriga a instalação de bicicletários em estações de metrô e em locais que atraiam grande quantidade de pessoas.

Outras leis também têm por objetivo incentivar o uso de bicicleta (clique para acessar leis que tratam de mobilidade urbana), a exemplo da Lei Distrital n° 3.885/2006 (Política Cicloviária de incentivo ao uso da bicicleta) e da Lei Distrital n° 4.397/2009 (Sistema Cicloviário), e podem fundamentar melhorias nas condições de acesso e de parada na rodoviária do Plano Piloto.

Além da obrigatoriedade de bicicletários prevista em leis, o Plano de Ciclomobilidade (clique para acessar detalhes sobre o programa) lançado pelo GDF em 2017 prevê a instalação de bicicletários em terminais de ônibus.

Previsão de bicicletários  no Plano de Ciclomobilidade do GDF

– Mapeamento de ciclovias

Em 2015, a Secretaria de Mobilidade (Semob) realizou oficina colaborativa para mapeamento das ciclovias no DF, com os seguintes objetivos: identificar as ciclovias, os pontos de interesse (ex.: bicicletários e oficinas), pontos frágeis (ex.: falta de sinalização e buracos) e pontos positivos.

O trabalho realizado (clique para conferir a apresentação) mostra levantamento da Semob na ciclovia do Eixo Monumental e aponta o problema de descontinuidade na rodoviária do Plano Piloto.

Mapeamento elaborado pela Semob aponta falha na ciclovia próxima à rodoviária do Plano Piloto.

Pelo mapeamento realizado conclui-se que o atual governo tem ciência do grave problema na infraestrutura cicloviária desde maio de 2015. No entanto, passados quase três anos, não houve qualquer providência para garantir segurança aos ciclistas que passam pela rodoviária do Plano Piloto.

Vale destacar que o problema na rodoviária do Plano não é apenas a inexistência de infraestrutura cicloviária, como afirmado no trabalho de mapeamento. Outro problema evidente é a falta de manutenção da infraestrutura, afinal existiam ciclofaixa e bicicletário.  As fotos de anos anteriores mostram a sinalização voltada aos ciclistas, que se apagou, e o bicicletário, que se deteriorou e está com acesso bloqueado.

Sinalização de alerta para a passagem de ciclistas em 2014, na rodoviária do Plano.

Situação do bicicletário da rodoviária do Plano em 2011.

– Incentivos à integração da bicicleta ao transporte coletivo

Há muitos bons exemplos de incentivo à integração intermodal no exterior e no Brasil. Mauá, no interior de São Paulo, é referência mundial por oferecer 2 mil vagas aos ciclistas ao lado da estação de trem. Além das vagas, o bicicletário mantido pela associação Ascobike possui oficina, compressor de ar e outras facilidades aos ciclistas. Outro exemplo que pode ser mencionado é o da Prefeitura de São Paulo, que instalou bicicletários gratuitos – abertos 24 horas e com controle de acesso – em diferentes pontos da cidade, próximos aos terminais de transporte coletivo.

   

Bicicletários associados ao transporte coletivo em Mauá e em São Paulo.

No exterior há inúmeros exemplos de cidades que incentivam a integração da bicicleta ao transporte coletivo. Na Holanda e na Dinamarca, países de referência em mobilidade moderna e sustentável, existem grandes bicicletários em volta das estações de metrô e vagas próximas aos pontos de ônibus e espalhadas por toda as cidades.

   

Muitas vagas para bicicletas: cena comum em cidades da Holanda.

No Distrito Federal, apesar das belas leis e dos programas governamentais bem intencionados e ilustrados, faltam incentivos ao uso de bicicleta como meio de transporte, individualmente ou associada ao transporte coletivo. Além das melhorias na infraestrutura (ciclovias seguras e bicicletários adequados), devem-se promover mudanças culturais de forma a atrair mais pessoas para a mobilidade saudável.

O próprio Poder Público deveria dar exemplo com ações inovadoras. Em vez de simplesmente propor centenas de quilômetros de ciclovia e instalar milhares de vagas para bicicletas, a cúpula do GDF (governador, secretários de estado e diretores dos órgãos de trânsito) poderia adotar o transporte integrado no dia a dia. Em vez de carro oficial, cada gestor público receberia Bilhete Único e passe livre para o sistema de bicicletas compartilhadas.

Da mesma forma, os órgãos da esfera federal poderiam aderir à ação inovadora e impulsionar o transporte integrado. É curta a distância entre a rodoviária do Plano Piloto e os Ministérios, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF, entre outros órgãos ao longo da Esplanada dos Ministérios. No trajeto plano e com ciclovia pode-se apreciar com calma, sem congestionamentos, a beleza arquitetônica.

Ciclovia da Esplanada dos Ministérios: bela vista e baixo fluxo de ciclistas.

Além de reduzir o caos crescente em razão da megafrota de carros em circulação, as ações de incentivo ao uso integrado da bicicleta trariam vários outros benefícios, tais como: redução do sedentarismo e do estresse; menor demanda por estacionamentos para carros; maior segurança para pedalar (com mais bicicletas nas ruas, a segurança aumenta); estímulo ao mercado de bicicletas (fábricas, lojas e oficinas).

 

VÍDEOS:

De bicicleta na rodoviária do Plano Piloto

Bicicletário de Mauá – ótimo exemplo de incentivo às bicicletas

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

 

Fórum da Água ou Fórum da Inacessibilidade?

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

   

Ao passar pelos arredores do estádio, fiz registros do Fórum Mundial da Água com o viés da imobilidade e inacessibilidade. Desde a realização da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016), acompanho a (i)mobilidade em eventos realizados na região.

Apesar das promessas de legado dos megaeventos, a exemplo do VLT, o que se vê são calçadas e ciclovias destruídas e sem continuidade, transporte coletivo precário e sem prioridade, e alta dependência do automóvel.

   

Caos nas proximidades do estádio. Ponto de ônibus abandonado e sem uso.

No Fórum Mundial da Água, realizado entre 18 e 23 de março, a inacessibilidade e o caos foram nítidos e devem ter surpreendido os turistas que imaginavam uma cidade moderna. Mesmo após quase cinco anos da realização do 1º megaevento (Copa das Confederações) no bilionário estádio Mané Garrincha, o cenário é desolador.

   

Em frente ao bilionário estádio, muitas crateras e lama.

Às vésperas do início do evento, notei um autêntico serviço para gringo ver: pintura do meio-fio em toda a região em volta do estádio. Os participantes do evento não teriam calçadas nem condições mínimas de acessibilidade, mas poderiam admirar o caminho pintado.

   

Mutirão da pintura: serviço “pra gringo ver” no entorno do estádio.

Apesar do intenso movimento de pessoas a pé durante os eventos, faltam calçadas e pontos de travessia.

   
   

Sem calçadas e sem pontos de travessia.

A calçada ao longo do Eixo Monumental, próxima ao estádio, ficou inacabada. Teria faltado recurso para concluir a calçada?

   
 

Calçada inacabada, sem continuidade.

Na calçada em frente ao Centro de Convenções faltam rampas de acesso, o que obriga os cadeirantes a andarem na rua e evitarem a calçada.

   

Ausência de rampas nas calçadas em frente ao Centro de Convenções.

Além da falta de rampas de acesso, há carros e bloqueios no caminho. Os próprios órgãos de fiscalização instalam bloqueios no espaço reservado aos pedestres, ou permitem o bloqueio, como um ônibus de turismo na calçada do Eixo Monumental.

   

Bloqueios dificultam a passagem de pedestres.

Outro grande motivo de desconforto foi o calor, agravado pela grande área impermeabilizada em volta do estádio, com distâncias longas e sem sombra entre a vila cidadã, o centro de convenções e o setor hoteleiro.

 

– Caminho entre o setor hoteleiro e o estádio

A distância entre os hotéis da área central e os locais para realização de grandes eventos (estádio, centro de convenções e ginásio) é curta e favorável à caminhada. No entanto, o percurso a pé se torna uma verdadeira saga em razão das inúmeras crateras, da lama e dos carros no caminho.

   
   

Muitas armadilhas no trajeto: buracos e lama aos turistas.

   
   

Calçadas convertidas em local de circulação e estacionamento para carros, sem faixas de travessia.

   

Rampa improvisada e deteriorada no Setor Hoteleiro. Nas travessias, faltam faixas de pedestre.

– Cadê o bicicletário?!

Apesar de se vangloriar como capital brasileira das ciclovias, falta muito para se incentivar o uso de bicicleta em Brasília. Não bastassem a falta de continuidade das ciclovias e as falhas graves de sinalização e iluminação, falta até mesmo um simples bicicletário para atender aos torcedores e participantes de eventos no estádio.

No dia em que visitei a Vila Cidadã, perguntei a três pessoas da organização sobre local para estacionar. A resposta foi bem clara: não tem bicicletário no evento! O jeito foi improvisar: acabei estacionando atrás da tenda armada para fazer a triagem dos resíduos sólidos.

   

Vila Cidadã sem espaços para os cidadãos ciclistas.

Quando postei no facebook sobre a falta de bicicletário, outros ciclistas relataram que também precisaram improvisar na hora de estacionar. Andrea Piña relatou a experiência ao ir de bicicleta para o Fórum: “Fui com minha filha e me deparei com este absurdo! Tive que acorrentar a bicicleta no tapume e o segurança disse que ia olhar”.

Foto enviada por Milvo Rossarola.

Foto enviada por Andrea Piña.

É curioso observar que o espaço do antigo “bicicletário” do estádio (entre aspas, pois o espaço era inadequado: com suportes frágeis, sem cobertura e sem controle de acesso) foi convertido em mais vagas para carros.

No lugar do “bicicletário”, mais vagas para carros.

Mais uma bicicleta em local improvisado, no Fórum da Água.

Ao passar pela região e conferir a (i)mobilidade nos megaeventos, pude registrar a progressiva deterioração do “bicicletário” até se transformar oficialmente (com vagas demarcadas) em estacionamento para carros.

Sem vagas para bicicletas e sem ciclovias conectadas e seguras. Nos arredores do estádio, falta conexão entre as ciclovias. No início da Asa Norte, próximo à 5ª delegacia de polícia a ciclovia dá uma volta no canteiro sem ligação com o estádio, a torre de TV ou o setor hoteleiro. Para piorar, há muitos trechos de ciclovia destruídos.

Em contraste com a ampla pintura de meio-fio, não houve pintura nos cruzamentos. Ao longo do Eixo Monumental os cruzamentos da ciclovia nunca foram pintados, ou estão com a pintura apagada. A falta de sinalização (pintura e placas de alerta para a passagem de ciclistas) contribui para os bloqueios constantes no caminho.

   
   

No entorno do estádio, ciclovias destruídas, sem sinalização e bloqueadas.

 

– Dependência automotiva

As péssimas condições a quem depende do transporte coletivo, caminha e pedala contribuem para aumentar a dependência do carro. Pistas largas e amplos estacionamentos gratuitos tornam atrativa opção pelo carro para chegar ao evento.

   

Facilidade para chegar de carro: vagas gratuitas e em grande quantidade.

Nota-se que os megaeventos não resultaram em melhorias na mobilidade urbana e na acessibilidade. Mais uma vez, Brasília sediou um evento internacional e deixou como legado calçadas destruídas, desconexas e inacabadas; ciclovias desconexas; bicicletário convertido em vagas para carros; transporte coletivo insatisfatório, sem prioridade para circular nas seis pistas do Eixo Monumental.

Em manifestação registrada em janeiro deste ano na ouvidoria do GDF (disponível na seção do blog com as solicitações protocoladas), relatei os problemas de inacessibilidade no setor hoteleiro norte. Incluí 12 fotos para ilustrar os problemas e pedi providências para aumentar o conforto e a segurança dos pedestres. Se o governo tivesse atendido às solicitações, certamente os turistas deixariam Brasília com melhor impressão.

Espero que, um dia, o governo traga não só grandes eventos, mas também importe grandes ideias de como promover fóruns, shows e jogos com bons níveis de mobilidade e acessibilidade, com turistas caminhando sem tropeços e com legado positivo aos moradores.

 

SAIBA MAIS:

Brasília – imobilidade monumental a pedestres e ciclistas

Vídeo mostra bloqueios e inacessibilidade em evento realizado no Centro de Convenções em 2016.

De bicicleta no novo estádio Mané Garrincha

Vídeo revela a dificuldade de ir de bicicleta ao estádio, em jogo realizado em 2013.

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

Vídeo de 2018 revela as péssimas condições aos pedestres na Esplanada dos Ministérios.

Álbum completo com as imagens do Fórum da Água e do entorno do estádio